quarta-feira, 5 de abril de 2023

O Olhar

O que você sente ao olhar o outro? Que sentimento desperta em vc? Amor? Compaixão? Carinho? Respeito?.... Comecei assim pq não sei por onde começar. Minha vida inteira tive um lar e pais que me ensinaram a prática do "fazer o bem sem olhar a quem", sem cunho religioso, moral ou astrofísico (hehe). Apenas olhar e fazer quando e se possível.
Bom, ontem participei de um workshop com meu marido e colegas de trabalho dele, fomos almoçar juntos perto da Pç Osório, uma tarde linda de terça feira, sol, calor, feirinha de páscoa bombando... eu e ele resolvemos ver o que tinha na feirinha, passeamos tranquilamente pela feira, depois passamos em um armarinho que eu precisava comprar umas coisas, paramos em uma loja de cutelaria pq ele é apaixonado por facas, fiz inúmeras perguntas, o rapaz que nos atendeu foi extremamente solícito e gentil. Ao sair da loja pensamos em ir até a Rui Barbosa tomar sorvete, mas eu já queria vir para casa para soltar minhas cachorrinhas e dar comida para elas. Fomos então andando na direção do carro. Bem na esquina da Garcês tinha um Senhor deitado com 2 cães, eu olhei os bichinhos e pensei "Esses sim são amigos para TODAS as horas", o Senhor olhou para meu marido e pediu um chinelo, ele fez sinal que não dava e ao virar a esquina eu olhei novamente para o cachorrinho dele, e ele também me pediu um chinelo. Demos mais alguns passos, na hora veio na minha cabeça uma frase da minha mãe que falava "Denise, as vezes Deus se disfarça de pobre para testar o coração dos homens". Eu pensei, mas poxa, vou voltar ajudá-lo pq meu coração quer ou por medo de ser Deus disfarçado? kkkkk.. Mas, ao olhar pro meu marido e ele me olhar nós dois entendemos o que tínhamos que fazer.... Voltamos e eu perguntei se ele sabia onde tinha chinelo para vender por ali (não era má vontade, fazia anos que eu não passava pela Osório).
Aquele homem se iluminou!! "Sério? Você vai mesmo me dar um chinelo? Espera eu guardar minhas coisas?", enfim, em resumo, ele guardou as coisas dele, ajeitou os cachorrinhos e o que vem a seguir é o que me motiva a escrever isso tudo... O OLHAR!
Ele nos pediu para segui-lo pelo meio da feirinha e nós fomos andando e conversando com ele (eu, meu marido, ele, e os cães), ele falou o tempo todo que o mercado era logo ali, para a gente não desistir, que os pés estavam doendo, que tinham levado o chinelo dele enqto ele dormia, etc... e eu fui reparando nas pessoas que cruzavam conosco... o olhar de "aqui não é o lugar dele" foi GERAL! As pessoas olhavam com desprezo, cara feia até um certo nojo. E nós, por estarmos com ele, também sumimos em meio àquilo tudo, também tivemos os mesmos olhares lançados sobre nós.
Será que é tão difícil, tão repugnante, tão doloroso olhar o seu próximo? Uma pessoa em situação de rua, suja, sozinha, não merece estar na feirinha? Não merece dividir o mesmo ar que você respira? Pq não? O que te faz diferente dele? Estudo? Dinheiro? Família? Amigos? Carro zero? Casa própria?.... bem no fim, nada disso fica.
Gostaria SIM de viver em mundo utópico onde cada um tivesse seu lar, seu estudo, seu carro, sua casa... seu chinelo! Com dignidade! Sem precisar pedir, sem precisar implorar... nesse mundo utópico todos seriam iguais, seriam só pessoas, não seriam pretos, brancos, ricos, pobres, partidários x ou partidários y... seriam... PESSOAS! Que se respeitam e que são sim iguais na sua essência. Nesse mundo utópico não teria discriminação, fome, miséria, soberba, todos, absolutamente todos teriam lugar, todos pertenceriam a esse presente que temos que é a vida e o mundo à nossa volta.
Pra que brigar tanto? Pra que discutir? Pq sua opinião é mais importante e/ou relevante que a minha? Somos iguais... pensamos diferente, mas é na diferença que a gente aprende, que a gente cresce.
Fizemos uma longa saga atrás desse chinelo, eu já não estava mais conseguindo andar com dor nos pés e abafamento da bota, mas ali estava aquele Senhor saltitando, os cães brincando pela rua e sim, ao contrário de muitos por aí, quando o cachorrinho fez cocô na rua, ele pegou um plástico, recolheu o cocô e levou a uma lixeira. Ele não fedia cachaça, não estava drogado, estava com fome? Obviamente... mas ele queria um chinelo, pq no asfalto quente pelo sol a sola do pé dele estava abrindo e rachando.
Ele se importou de não ser ninguém aos olhos dos outros? Acho que deve estar acostumado! Ele se importou quando no primeiro mercado disseram para o meu marido (que estava ao lado dele) que não tinha chinelos para ele? Nós seguimos a pé até o próximo mercado e enqto eu fui pegar água e outras coisas, meu marido com ele ao lado perguntou do chinelo e disseram que não tinha. Ao me encontrarem em um dos corredores, eu já estava na frente dos chinelos. O Senhor viu se tinha o tamanho dele, e olha: TINHA!!! Meu marido voltou até o funcionário do mercado e mostrou o chinelo. Fomos na direção do caixa e o Senhor pediu para nos esperar do lado de fora, até pq a caixa do mercado, os seguranças, funcionários, estavam todos de olho nos observando. A moça do caixa, não sei se por surpresa ou sacanagem, sequer tirou o lacre do chinelo, pois, ao passarmos pela porta de segurança começou a apitar e apitar e apitar... imagina se esse chinelo estivesse na mão daquele Senhor? Será que iriam ouvir quando ele dissesse que tinha pago?
Fizemos questão de voltar com ele e os cães para o local onde o tínhamos encontrado, até pq era nosso caminho até o carro. Na volta ele veio agradecendo quase o caminho todo, parava de agradecer e nos abençoar quando eu fazia alguma pergunta. Perguntei seu nome, sua idade (52), ele me disse que era de Governador Valadares, que um homem ontem deu para ele um trocado e disse "Vou te dar mas já aviso que não gosto de preto" ao que ele respondeu "Mas eu sou preto, meus ancestrais são pretos", na hora eu pensei... sim, ele tem educação.
O que será que fez esse Senhor bonito, tão bonito por fora quanto por dentro, de olhos azuis como o mar, tão carinhoso com 2 cães (A Pandora e o Negão) estivesse assim, jogado na rua, sendo "ninguém"?
Confesso que minha vontade era de sentar no chão ao lado dele e passar a tarde conversando. Mentira!! Minha vontade era de trazer pra casa, proporcionar banho, comida, cama quente, banho para os cães, oportunidade de trabalho, oportunidade de dignidade... mas eu não fiz. Minha vontade também é, em não poder acolher, ir todos os dias lá na Osório e saber se ele está bem, se comeu, se os cães estão bem.. mas eu também não farei isso, pq eu tb não posso ir até lá todos os dias. Existe uma vida "acontecendo" e eu preciso seguir com a minha da melhor forma dentro do que posso no momento.
Mas sem sombra de dúvidas, parar, conversar, ver o brilho do olhar dele, poder ajudar, andar lado a lado, brincar com os cães foi uma experiência que mexeu muito muito muito com meu coração.
Ontem, ao deitar na cama quentinha, macia, eu que desde dezembro penso "Boa noite mãezinha e paizinho, Deus os abençoe, cuidem de nós"... eu pensei "Boa noite mãezinha e paizinho, Deus os abençoe, obrigada pela cama quentinha, cuidem do Senhorzinho da Osório, dos cães e se sobrar um pouquinho de tempo de nós tb".
Estar ali ao lado dele, sumir aos olhos da multidão.. ser "ninguém" dói viu? Dói muito... ser olhado com desprezo, rejeição... dói!! O morador de rua é um resistente, seja "puro ou calibrado" estar ali é para poucos, com a pouca dignidade que essa situação permite, mas com a muita dignidade que esse Senhor tinha, são poucos... será que são poucos? Ou será que eu nunca os olhei além da capa do livro?
Não lembro se li isso em poesia, se escutei ou o que... mas vou repetir aqui: "Cada ser humano é um oceano" e eu completo que esse oceano é imenso, as vezes é denso, as vezes é límpido... mas é sim um oceano e cada um, na sua individualidade e essência é único, mas essa condição não nos exclui de também ser igual.
Eu n ia escrever nada, mas aquilo me tocou tanto e em casa, meu marido me perguntou "Vc vai escrever um texto sobre isso?", na hora disse que não. Mas agora resolvi que sim.
Te contar, todos, tooooooooodos, temos as mesmas necessidades... comer, beber, dormir, sonhar, conversar, ter amigos... TODOS!!! Eu desejo que nunca sejam tratados como "ninguém", mas que cada um lembre que mesmo aquele que está ali todo sujo, sentado no chão, morando na rua, também é ALGUÉM!!

Esse texto não é sobre caridade, não é sobre doação, não é sobre ter... esse texto é sobre SER! Não em ser como eu ou como meu marido ou como minha mãe ou meu pai... é sobre você olhar para dentro e pensar a respeito.

Esse texto também não é um conto fictício, ele é real. Aconteceu comigo e com meu marido ontem dia 04/04/2023.

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